Mania de anglicismos

Brasil com Z! retirado de: Observatório da Imprensa

Num recente artigo de jornal, o autor afirmou categoricamente que a expressão feedback não tem tradução para a língua portuguesa, o que é comum na mídia. Mas tem! Segundo o dicionário Aurélio, por exemplo, significa “realimentação” ou “retroalimentação”, conforme o caso. Em eletrônica, é “realimentação negativa”. O sinal de entrada no amplificador é inibido segundo a informação da saída do alto-falante. Se a correção fosse positiva, ocasionaria o fenômeno indesejável da microfonia. Portanto, a nossa expressão é mais abrangente e mais objetiva do que a expressão inglesa, que seria somente uma “resposta”.

A tradução correta de feedback é “retroação”, que representa uma ação conseqüente a uma informação. A bóia de uma caixa d´água mede o nível desejado e comunica o desvio à válvula, que regula a entrada e impede o excesso ou falta na alimentação. Num laminador de aço, o objetivo é manter a espessura uniforme da chapa. Se esta varia, um “apalpador” colocado na saída dos cilindros informa um “amplidino”, reajustando-se o sistema na medida certa. A definição matemática é: “uma função de função que liga, através da variável dependente, todas as variáveis de uma função”.

Marketing é outra palavra supostamente sem tradução… Mas também tem. O Aurélio dá “mercadologia”. A jornalista Sonia Hering, do antigo BNDE, propôs “mercantização”, expressão mais própria, que seria uma ação controlada sobre o mercado. Contudo, a imprensa falada e escrita segue com a preferência pelo inglês, infelizmente.

Música baiana criou o “rebolation”

Feedback e marketing são alguns desses estrangeirismos desnecessariamente incógnitos. Quando não se conhece o contexto em que se usa a palavra original é mais fácil repeti-la, como um papagaio, do que pesquisar o assunto até encontrar a tradução que transmite seu correto significado. É preguiça de estudar.

Uma enxurrada de termos de origem inglesa empurra para fora os nossos vocábulos e toma o lugar deles. É o caso de show, air bag, recall, design, personal trainer, set-top-box (conversor para TV digital) home office, micro-system, hard disc ou e-commerce, que deveriam ser traduzidos ou aportuguesados, enriquecendo a língua pátria. Não se pergunta se temos a palavra correspondente em nosso idioma. Parece haver uma preferência cabotina pela exibição de cultura poliglota tão superficial quanto falsa. Essa devoção invade tudo. Vejam só:

Na ginástica temos lazy walk (caminhar lento), sitting on the pole (sentando no poste), carrousel (carrossel), fireman move (giro do bombeiro) e hand stand (de cabeça para baixo), significando posturas ou movimentos.

Em pleno carnaval, a música baiana teve que criar o “rebolation”! E a mídia o explorou alegremente até nas partidas de futebol! Em inglês, claro!

Muitos jornais são news

E na informática? Um artigo de João Nunes, no Correio Popular (22/10/07), tem de tudo: delete é “apague”, “entre” é enter, o começo do texto é home, o fim é end. Se iniciar é “inicializar”, então encerrar é “encerralizar”? E por que escrevemos “site” e pronunciamos “sáite”? Por que não dizer “sítio” como nos países de língua espanhola? Ou usar a nossa própria língua e dizer “lugar” ou “página”? Mensagem é “e-mail”, conexão é on-line. João Nunes diz que é pura preguiça de imitadores, ou “macaquitos” segundo os argentinos.

Agora copiamos o bullying, que a mídia não pensou em traduzir para “violência escolar”, por exemplo. Não fazemos compras nos “centros comerciais”, como os mexicanos, mas sim, nos shopping centers. Usamos outdoor em vez de cartaz, painel, anúncio ou letreiro. Trocamos tudo isso por um simples “porta-fora” inexpressivo e incorreto. Pior: o tal outdoor aparece até em textos de leis ou regulamentos!

Certamente há uma preferência nacional pelos anglicismos. Duvido que a supernanny (do SBT) fizesse o mesmo sucesso como “superbabá”, apesar do talento da psicóloga Cris Poli. Ou que a audiência do programa Big Brother Brasil da TV Globo fosse igual, se ele tivesse o título de “Irmão mais velho”, ou Gran hermano, como na Argentina.

Existem alguns avanços. Hoje dizemos “vocalista”, e não crooner, “locutor”, e não speaker, “bandido”, e não gangster. Mas o discotecário ainda é disk-jockey, tem a festa rave, cartão de crédito é card, refeição ligeira é fast food, serviço domiciliar é delivery, cinema na TV é top cine e o pior de tudo: muitos jornais são news! Jornais brasileiros, news? Credo!

O rabo entre as pernas

Para bares e afins temos Antonio´s, Gold Street Bar, Matsu Japanese food, Goldfarb, Realty, Shoestock, Cambui garden, Structure, Mall, Mc Donald´s, Bob´s. Para o happy hour

Jogos são War in Rio e Jaguariuna Rodeo Festival. É mole?

A fusão da Sadia com a Perdigão (dois nomes bem brasileiros) dá origem à Brasil Foods, a maior exportadora de carne processada do mundo! Como marca de mercadoria para exportar, vai bem, mas como nome de empresa… só abanando o rabo. Pois Nelson Rodrigues disse que os brasileiros têm um “complexo de vira-lata”, precisam abanar o rabo quando o dono aparece. E se é o dono quem manda…

É preciso cuidado quando se fala dessa subordinação canina. Pode haver uma interpretação política perigosa. No artigo “Mudanças radicais”, na Folha de S.Paulo (24/4/2008), Carlos Heitor Cony conta que, no tempo da ditadura, comentando a vinda de novo ato institucional, sugeriu como gozação que o primeiro artigo seria: “Os Estados Unidos do Brasil, a partir desta data, será o Brasil dos Estados Unidos”. Isso lhe valeu uma crise profissional que o obrigou a pedir demissão do jornal em que trabalhava. Em vez de abanar o rabo, às vezes é preferível colocá-lo entre as pernas.

“A cafonice impera”

Muitas vezes o emprego de palavras estrangeiras torna-se ridículo ao explorar o esnobismo barato para se exibir. Essa cafonice dá aos prédios nomes ingleses: Beach Park, Bluesky, My Forest, Golden Square, Golden Jail. São cheios de atrativos como playground, street ball, fitness center, child care, garageband, beautycenter, acqua, nature, shit box. O comprador não sabe o que são, mas os considera um refinamento. Ele não compraria um Jardim Verde, com piscina, sala de ginástica, parque infantil. Ora, isso todo mundo tem. Ele quer ser diferente, internacional! Que frescura!

Eunice Sassi dá um magnífico depoimento em seu artigo “Respeito ao idioma” no Correio Popular (Campinas, 5/1/08). Observa a “invasão indiscriminada de expressões utilizadas abusivamente nos meios de comunicação e pelo povo em geral”. Admite que “alguns estrangeirismos passem a fazer parte do nosso vocabulário, mas isso deve ser feito com bom senso e sem exageros”. E conclui: “Já é tempo de despertarmos para a importância de falar e escrever corretamente a própria língua.”

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou, por unanimidade, em 13/12/07, o projeto do deputado Aldo Rabelo que proíbe o estrangeirismo no país (notícia no Correio Popular, de Campinas, de 14/12/07). Não pegou! Houve pressão contra, especialmente da imprensa. Em artigo na Folha de S.Paulo, de 4/1/08, intitulado “Uma chamada para trás”, o escritor Nelson Motta investe fazendo caçoada e achando-se engraçado. Não dá para reproduzir aqui todos os termos do inglês para os quais ele desconhece tradução, pois são inúmeros. Pergunta, por exemplo, qual seria a tradução para milk-shake e sugere “leite chacoalhado”. Será que ele nunca ouviu falar em “leite batido”? Ou o termo não é tão… americanista?

Ruy Castro, em “Palavras proibidas”, artigo de 5/1/08 na Folha de S.Paulo, ainda escrevendo contra, reconhece que “o brasileiro tem abusado do inglês” e acaba confessando que “a cafonice impera”…

Mais uma língua morta?

Já houve, no passado, algumas tentativas bem-sucedidas de traduzir palavras inglesas. No futebol foram vertidos os termos e as posições do jogo. Isso porque nos tornamos uma potência nesse esporte e não ficaria bem o campeão mundial apresentar seus craques fantasiados de gringos. Teríamos que cantar o Hino Nacional em inglês (ou o hino inglês) no início dos jogos. Agora que estamos a caminho de virar potência mundial na economia e na política, pois temos até estadista global, deveríamos traduzir tudo. Falar só o português. Para essa reação precisamos de um novo Camões que repita: “Cessa tudo que a antiga musa canta que outro valor mais alto se alevanta”… Mas não em inglês, é claro!

Pois se continuarmos com o mau gosto de preferir os nomes estrangeiros nos prédios e nas lojas, na TV e nos jornais; se persistirmos na cafonice a fazer caçoada com as tentativas de recuperar o nosso vernáculo, aplaudindo a exploração do esnobismo barato na mídia, a nossa Flor do Lácio vai murchar e cair. Será mais uma língua morta, como o latim e o aramaico. Seguiremos abanando o rabo para esse dono sempre presente nas nossas vidas. E vamos escrever Brazil com Z!

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